Delação de presos pode desvendar assassinato de Marielle

Autoridades esperam que uma possível delação premiada ajude a descobrir quem encomendou a execução
Vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) era feminista e ativista dos direitos humanos Agência Globo
13/03/2019 às 8:56

Na próxima quinta-feira completa um ano da morte da vereadora Marielle Franco (Psol) e de seu motorista Anderson Gomes, em uma emboscada, no bairro do Estácio, no Centro do Rio. Nesta terça-feira, foram presos dois suspeitos de terem cometido o crime: o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, de 46 anos. Lessa é acusado de ter atirado na parlamentar, e Elcio, de ter dirigido o carro utilizado na execução. Agora, as autoridades colhem provas para identificar quem mandou matar a vereadora e qual a motivação.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, afirmou que os dois suspeitos poderão realizar delação premiada para revelar quem foi o mandante do crime.  Já o presidente Jair Bolsonaro afirmou que espera que a investigação aponte os mandantes do crime. “Espero que, realmente, a apuração tenha chegado de fato a eles, se é que foram eles os executores e, mais importante, a quem mandou matar”. Questionado sobre fotos em que aparece ao lado de um dos presos (Elcio), o presidente disse ter fotos com “milhares” de policiais do Brasil inteiro.

Condomínio

O fato de um dos suspeitos (Ronnie) ser vizinho do presidente no condomínio Vivendas da Barra é uma coincidência, de acordo com o Ministério Público do Rio. “Absolutamente, não há nenhum fato que diga que tem alguma vinculação. Muito pelo contrário, não temos controle dos nossos vizinhos. Até esse momento, o fato foi coincidência”, disse a coordenadora do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-RJ, Simone Sibílio, durante uma coletiva.

Segundo a investigação, Ronnie Lessa realizou pesquisas online sobre a rotina da vereadora, de outros políticos – como o deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ) – e de autoridades da Segurança Pública, como o ex-interventor do Estado, general Braga Netto. “Ronnie tinha um perfil de ódio a políticos de esquerda”, afirmou o delegado da Divisão de Homicídios, Giniton Lages.

Mônica Benício, viúva de Marielle, lamentou que ainda não haja respostas a respeito de eventuais mandantes. “Não basta prender mercenários, é importante saber quem mandou articular tudo isso e qual foi a motivação”.

Suspeitos

Ronnie Lessa, de 48 anos, mora no mesmo condomínio de luxo onde Jair Bolsonaro tem uma casa, na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio). Em outubro de 2009, o sargento reformado sofreu um atentado a granada quando dirigia seu carro, uma Toyota Hilux. A explosão provocou a amputação de uma de suas pernas. Desde então, ele tem uma prótese.

Lessa foi filiado ao PMDB (atual MDB) de 1999 até 2010, segundo a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sua filiação se deu menos de um ano depois de ter sido homenageado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) pelo falecido deputado estadual Pedro Fernandes Filho, quadro histórico do partido no Estado.

A homenagem, protocolada em 23 de novembro de 1998, foi justificada por Fernandes pelo modo como Lessa e outros 17 policiais do 9º Batalhão da PM, em Irajá, haviam conduzido uma operação.

Lessa também seria dono de uma outra mansão, no condomínio de luxo Portogalo, em Angra dos Reis, na Costa Verde, onde haveria uma lancha, segundo a investigação. O PM reformado tinha um carro avaliado em mais de R$ 100 mil, um Infiniti FX35 V6. Segundo a investigação, os bens seriam incompatíveis com o salário de policial na reserva, da ordem de R$ 8 mil mensais.

Filiado ao DEM, Elcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, foi expulso da PM do Rio. Em nota, a legenda afirmou que vai aplicar a “sanção sumária de expulsão”, cancelando a filiação partidária por “descumprimento dos deveres éticos previstos estatutariamente”.

Adiantamento

A operação policial que resultou na prisão dos dois foi adiantada em um dia em razão do vazamento da sua realização. Conforme o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, a decisão foi tomada a fim de impedir que os suspeitos fugissem. Ambos foram detido por volta das 4h30 em suas respectivas moradias.

“Ronnie chegou a afirmar, na hora da prisão, que havia sido avisado”, contou a promotora Letícia Emile Petriz, uma das responsáveis pela investigação no MP-RJ. Para a promotora, ele cometeu o crime movido pelo ódio, já que se incomodava com a atuação de Marielle em favor de minorias.

Caveira do Bope
Ronnie Lessa tem longo histórico de relação com a contravenção e o crime organizado no Rio, embora nunca tenha sido denunciado. Ele teria trabalhado como segurança do contraventor Rogério Andrade. O PM reformado já foi “caveira”, ou seja, policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Reação do senador
Segundo o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), o fato de um dos suspeitos morar no mesmo condomínio do presidente, não significa que haja uma associação entre os dois. “Forçação total de barra… Essa narrativa não vai colar não”, disse ao jornal “O Globo”.





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