Enquanto chorávamos mais um feminicídio, homens se fantasiavam de mulheres por diversão

06/03/2019 às 20:48

Para a maioria dos brasileiros o Carnaval é uma das principais formas de manifestação cultural do país, capaz de agregar e agradar a todos e todas em sua diversidade. Período de diversão, alegria, ousadia e entretenimento.

Contudo, esquece-se que, por vezes, o Carnaval pode se tornar só mais um espaço de reprodução de preconceitos, discriminação e violência.

Uma prática carnavalesca muito comum em diversas regiões do país é o “Desfile das Virgens”, evento em que homens de todas as idades se fantasiam de mulheres, em sua maioria utilizando roupas curtas, sensuais e fantasias hiperssexualizadas.

E o que isso tem a ver com a violência de gênero?

Infelizmente vivemos em um país altamente violento, com altos índices de violência doméstica, feminicídio, estupro e homo-lesbo-bi-transfobia, o que significa dizer que realmente existe uma certa “cultura” de ódio contra o feminino, seja contra as mulheres cis, seja contra as mulheres trans, travestis, lésbicas e, pasmem, até mesmo contra os homens afeminados (gays).

Enquanto essas mulheres não podem usar as roupas que querem para ir a onde querem, por receio de terem seus corpos violentados – já que essa geralmente é a justificativa: “com essa roupa tá pedindo!” – os homens se utilizam de vestuários femininos para se exibirem uma vez ao ano, reforçando o uso da imagem da mulher como objeto de cobiça e desejo, retificando a imagem do corpo feminino hiperssexualizado.

Em Crato, 4 mulheres foram assassinadas brutalmente pelos seus ex companheiros nos últimos 6 meses (Silvany, Rogéria, Cidcleide e Geane), em sua totalidade pelo fato deles não aceitarem o fim do relacionamento. Essa prática reitera a ideia de dominação do homem sobre a vida das mulheres.

Não esqueçamos também de Dandara, caso emblemático de travesti que foi covardemente torturada e assassinada publicamente por 5 homens, enquanto outro filma e a vizinhança assiste o ato em 2017 na cidade de Fortaleza. Tudo aconteceu pelo fato de Dandara ser travesti.

No caso de Geane, em Crato, o fato aconteceu no último dia 28, era uma jovem de 28 anos, que foi pega de surpresa pelo seu algoz ao sair do trabalho. Mais uma vítima do machismo, mais uma para as estatísticas da região do Cariri, mais uma mulher que não teve o seu direito de escolha respeitado por um homem.

Estarrecidas com a covardia do crime, mulheres de diversas organizações da região puxaram uma manifestação silenciosa que ocorreu, 24h depois, no local do crime, sexta-feira de carnaval.

Enquanto a manifestação ocorria em outra parte da cidade acontecia, também, o desfile das virgens do Crato.

Uma grande contradição não é mesmo? Em um mesmo lugar, de um lado mulheres sem direito de escolha, de liberdade nem de vida, e de outro lado, homens se divertindo fantasiados de mulher.

A violência simbólica é isto. Um instrumento de poder que auxilia na dominação de determinados grupos em detrimento de outros. Nesse contexto, vemos como é fácil para um homem se expor em público sem medo de sofrer retaliações. De fato, um privilégio.

Por isso é importante que pensemos sobre tal evento, pois em uma região onde o machismo faz tantas vítimas é preciso debater sobre as práticas que o mantém e que disseminam a cultura patriarcal na qual o corpo feminino é território livre para intervenção de homens independente de consentimento.

* Daniele Ferreira Ribeiro é advogada, graduada e especialista pela universidade regional do Cariri. 
* Lívia Maria Nascimento Silva é graduanda em Direito pela Universidade Regional do Cariri, integrante do Programa de Assessoria Jurídica Estudantil – Paje.
* “Esse é um artigo de opinião de responsabilidade exclusiva de seus autores publicado em um espaço de diversidade de opiniões aberto no site. O conteúdo aqui publicado não representam as ideias ou opiniões do Miséria”

Por Daniele Ribeiro e Lívia Maria
Miséria.com.br





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