Haddad: Bolsonaro tem alinhamento internacional cego à gestão Trump

30/11/2018 às 14:56

O governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), promove um alinhamento internacional cego à gestão do americano Donald Trump, afirmou nesta quinta-feira (29) Fernando Haddad (PT), candidato a presidente derrotado nas eleições.

Haddad participou da discussão “What went wrong when Brazil went right?” (“O que deu errado quando o Brasil foi para a direita”, em tradução livre), realizada no The People´s Forum, em Nova York.

O ex-ministro da Educação falou que o novo governo, “do ponto de vista das relações internacionais, promove um alinhamento cego à administração Trump, absolutamente cego, em todos os temas, seja a questão indígena, a questão ambiental ou a mudança da embaixada [brasileira] de Tel Aviv para Jerusalém”, disse.

Segundo ele, tudo é colocado nos mesmos moldes de um alinhamento num mundo que o governo quer que volte a ser bipolar.

“São governos que estão empurrando o mundo para a bipolaridade, que não aceitam o mundo multipolar por preconceito. Porque veem no mundo multipolar espaços para projetos emancipatórios, para projetos progressistas.”

As declarações foram dadas um dia depois do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, ser fotografado em Nova York com um boné com a frase “Trump 2020”, em apoio a uma eventual reeleição do republicano.

Também ocorreram no mesmo dia em que Bolsonaro recebeu em sua casa, no Rio, o assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, a quem prestou continência, em gesto criticado.

“A coisa que me chamou atenção ao encontro, em primeiro lugar, foi o fato de nosso presidente ter batido continência para o assessor do presidente americano”, afirmou.

“Eu fico me perguntando se houve algum encontro desconhecido dos brasileiros entre o Trump e o Bolsonaro para combinar o jogo. Porque até o presente momento só o Bolsonaro diz o que vai fazer a favor dos EUA. Eu não ouvi, até agora, nenhum compromisso do Trump com o Brasil.”

Para Haddad, ao acenar na direção dos EUA, o Brasil pode perder a objetividade de fazer uma escolha de parceiro preferencial com base nas vantagens que o país pode ter com isso.

“Perdemos essa visão. Não faz sentido o Brasil, com toda sua tradição diplomática, ajudar a empurrar o mundo para uma situação bipolar, tendo tido tantas vantagens em adotar uma perspectiva multipolar que sempre foi a prática da diplomacia brasileira.”

Haddad está em Nova York para lançar, neste sábado (1º), a chamada Internacional Progressista, uma aliança que terá o ex-prefeito, mas também o senador democrata Bernie Sanders e o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis.

O objetivo declarado é conter o avanço de governos de extrema-direita no mundo.

O ex-ministro da Fazenda afirmou que não é mais possível fazer política apenas localmente.

“O que está acontecendo no mundo tem algo por trás que não conhecemos inteiramente, mas que, podemos imaginar, está alterando a face do planeta numa direção perigosa, contra direitos que foram, com tropeços, idas e vindas, de uma história de 200 anos de ampliação dos horizontes”, disse.

“Essas questões não vão ser resolvidas se não tivermos uma atuação em nível internacional.Haddad falou ainda sobre a cobrança de uma autocrítica do PT.

“É engraçado, porque às vezes a imprensa insiste muito nessa questão da autocrítica. Nunca cobraram autocrítica nem da ditadura militar nem dos governos anteriores, só do governo do PT”, disse.

“Mas isso não é motivo para que nós não apontemos as nossas falhas. E eu tenho feito isso em todas as oportunidades, mas sem demonizar a esquerda como a direita gostaria que nós fizéssemos.”

Haddad falou ainda sobre o risco à democracia no país. Segundo ele, isso decorre do crescimento do autoritarismo dentro das instituições democráticas. “O golpe está acontecendo de dentro para fora. A democracia está sendo corroída por dentro das instituições”, diz.

Sem querer citar o ex-juiz Sérgio Moro, ele disse ser estranho deixar de ser um magistrado “num governo que ele ajudou a construir.” “Mas isso não causa comoção no Brasil de hoje.”

O Fórum que abrigou o evento se define como um movimento incubador para a classe trabalhadora e comunidades marginalizadas com o objetivo de construir unidade em um cenário de divisão nos EUA e no exterior.

Antes de apresentar o ex-prefeito, Manolo de Los Santos, diretor executivo do Fórum, gritou “Lula Livre” e afirmou que “perdemos as eleições”, mas não “somos um povo derrotado.”

Afirmou ainda que o grupo era anti-imperalismo e anticapitalismo, além de apoiar o MST, o PT e as forças da resistência que estão “lutando pela democracia no país”. “Esse é um espaço em que Haddad é nosso presidente”, afirmou.

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